terça-feira, 12 de outubro de 2010

À memória de Alexandrina Maria da Costa

«Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / muda-se o ser, muda-se a confiança», escreveu Camões. As ideias do P.e Leopoldino também se alteraram bastante. Veja-se este In Memoriam que ele fez sair em 22/10/1955, no «Ala Arriba», semana e pouco após a morte da Alexandrina, quando todos dela guardavam viva memória mas ainda não havia livros que lhe fixassem a biografia:

Na freguesia de Balasar deste concelho baixou à paz do túmulo Ale­xandrina Maria da Costa “Vicente”, tão conhecida, pelo menos de nome, em quase todo o País.
Nasceu a 30 de Março de 1904 e faleceu a 13 de Outubro de 1955, isto é, nasceu no ano de Nossa Senhora (ano do 50.º aniversário da defini­ção dogmática da Imaculada Concei­ção) e faleceu no dia da mesma Se­nhora, no dia último das suas aparições aos pastorinhos de Fátima.
Recebeu a primeira Comunhão na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição da Póvoa de Varzim e recebeu os ú1timos Sacramentos administrados por um sacerdote po­veiro, o seu pároco.
Diz-se de Nosso Senhor no seu Evangelho que passou a vida fazendo bem; da saudosa Alexandrina também se pode garantir que passou a sua vida espalhando benefícios.
De todos os donativos que alguns visitantes lhe deixavam espontaneamente, nada queria para si, distribuía-os pelas igrejas e pelos necessitados e pelas Missões.
É conhecida a história da sua vida; era uma humilde pastorinha do campo quando, qual outra Goretti, perseguida para fins criminosos, não encontrou outro meio de escapar do crime do que lançar-se de uma jane­la ao quintal, o que lhe ocasionou uma doença que a prendeu ao leito da dor perto de 40 anos e sofrendo com a maior resignação.
Era uma alma de Deus toda entregue ao sacrifício pela conversão dos pecadores, salvação dos moribundos e alívio das almas do Purga­tório.
O segredo da sua resignação cristã estava na Vida Eucarística, pois que recebia diariamente o Pão dos Anjos com fervor edificante e piedade singular.
A Sagrada Comunhão já há bastantes anos era a sua única comida, porque não tomava alimento algum. Nas últimas horas de sua vida, já mais do Céu que da terra, quando a sua família chorava e soluçava, asse­gurava-lhes: «Não chorem, que eu vou para o Céu.»
Sim, Alexandrina con­tava ir para o Céu, mas como os desígnios de Deus são insondáveis, é bom sufragá-la para lhe apressar o seu triunfo, se carecer de se purificar.
O seu funeral, a que assistiram cerca de 40 sacerdotes – e mais viriam se soubessem ou pudessem – foi um triunfo, uma apoteose. O seu cadá­ver, inumado por entre lágrimas e suspiros na terra fria, tem ainda a visita de muitos admiradores. É uma romagem constante para sua sepul­tura, uns a chorar outros a suplicar graças à Sacrificada que já não vêem mas que acreditam estar no Céu.
Aqui deixamos estas linhas à me­mória daquela que foi modelo da vida cristã.

Ao completar-se um ano sobre a morte da Alexandrina, quando já havia sido publicada Uma Vítima da Eucaristia, do P.e Mariano Pinho, o P.e Leopoldino dedicou à Allexandrina este importante artigo:
  
Alexandrina Maria da Costa

Passando, hoje, o primeiro aniversário do falecimento da saudosa e sempre chorada Alexandrina Maria da Costa, limito-me a repetir o que disse na despedida dos meus paroquianos de Balasar a respeito dela:

Passei convosco 23 anos e três meses e deixo-vos por motivo de doença e não por ser despedido dos superiores. Durante esse longo pe­ríodo de tempo baptizei a maior parte da freguesia, administrando es­te sacramento a 1.151 pessoas de ambos os sexos, presidi a 270 casa­mentos, não contando com os realizados fora, e acompanhei à sepul­tura 521 pessoas, crianças e adultos, destacando-se entre estes a nossa Alexandrina do Vicente. Esta rapa­riga do campo merece uma referência especial porque foi a minha valiosa cooperadora no múnus paroquial.
Conhecia tamanina quando rece­beu a Primeira Comunhão na Igreja Matriz da Póvoa de Varzim, que lhe foi dada pelo meu saudoso condiscípulo e pároco P.e Álvaro de Campos Matos.
Quando em 8 de Julho de 1933 tomei posse da paroquialidade de Santa Eulália de Balasar, encontrei Alexandrina já presa ao leito da dor e do sofrimento, prémio da sua abnegação e sacrifício na defesa da sua pureza e integridade do seu corpo de criança de 13 para 14 anos.
Sabendo que a Santíssima Eucaristia é a vida das almas santas e puras dominadas pela doença, du­rante anos consecutivos ministrei-lhe a Sagrada Comunhão diariamente, sendo este, no último período da sua existência, o seu único alimento.
Um dia, sentindo que as forças me iam definhando, disse-lhe: Alexandrina, parece-me que vou dei­xar-vos porque me não sinto com alento para o pesado ónus desta longa freguesia.
A doente calou-se mas volvidos dias, antes de lhe dar o Pão da Vida, ao abeirar-me do seu leito, diz-me:
- Senhor Abade, não receie perder o vigor para deixar a fre­guesia, porque pedi a Nosso Senhor que eu morresse antes de V. Rev.cia nos deixar e Ele prometeu-me que sim e a palavra de Deus não falta.
E assim sucedeu.
Nunca recebi dela dádiva alguma para a minha pessoa, mas recebi muitas para os outros.
A meu pedido ela auxiliou eficaz­mente algumas missões religiosas que operaram uma grande reforma espiritual na vida dos habitantes, muitos deles um pouco esquecidos das suas obrigações de católicos.
Obtive grandes melhoramentos para a igreja paroquial em alfaias e objectos do culto, especialmente o rico e artístico cofre-sacrário, tão lindo que não será fácil encontrar igual em aldeias.
O alto-falante, adquiriu-o espontaneamente para serem ouvidas por ela e pelos que estivessem fora do recinto sagrado as homilias e lei­turas como exercícios de piedade, bem como os cânticos religiosos.
Tinha uma dedicação especial pelas classes pobres, valendo-lhes muitas vezes nas suas necessidades e distribuindo anualmente, dos dona­tivos oferecidos pelos visitantes, alguns milhares de escudos em rou­pas pelos nus e pelos esfarrapados.
O Hospital era uma casa da sua preocupação, interessando-se ela e levando pessoas abastadas a oferecer dádivas em géneros e dinheiro à Santa Casa para que esta nunca deixasse de admitir e tratar com carinho os doentinhos de Balasar, como assim tem acontecido.
O falecido arcipreste Rev. Manuel da Costa Gomes tinha por ela grande respeito e consideração como Director das Obras do Apostolado dos Doentes e a Alexandrina, sabendo da feira das oferendas em benefício das obras da Igreja de S. José, arranjou um rico cesto e chamou bastantes conhecidas e amigas para fazerem o mesmo; por isso, Balazar marcou nessa feira.
As Missões do Ultramar foram matéria do seu zelo apostólico, fundando por intermédio dos Padres do Espírito Santo a Liam.
Presidente da Visita Domiciliá­ria da Sagrada Família, quando sa­bia que em alguns lares havia desinteligências entre os casados, chamava-os para os harmonizar e juntar.
Era uma alma de Deus, cheia de zelo apostólico, trabalhando muitíssimo pela oração e pela acção na santa obra da regeneração espiri­tual das famílias.

Por isso, na passagem do primeiro aniversário da sua subida à Glória do Céu, como cremos, não podíamos deixar no olvido a sua memória e pedir-lhe a continuação do seu auxí­lio à freguesia que lhe foi berço, embora já a não pastoreemos.
L.M. Ala Arriba, 13/10/56

Sem comentários:

Enviar um comentário